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A Crise e o Pool do Ouro em 1968


 A Crise e o Pool do Ouro em 1968.

O então Primeiro Ministro da França Jacques Chaban-Delmas, em alocução proferida na televisão, na noite de 08 de agosto de 1969, minutos após a divulgação oficial da decisão do Governo francês de cortar o franco em nono de seu valor, anunciou que seria apresentado ao Parlamento, a ser convocado extraordinariamente no mês de setembro daquele ano, um plano destinado a extirpar a inflação. As intenções do Primeiro Ministro, no entanto, foram de acionar os mecanismos clássicos de reequilíbrio econômico e financeiro do país combalidos pelos acontecimentos de maio de 1968, e que se vinha verificando pelas seguidas e violentas perdas de divisas que, face à constância e à força do fluxo, levaram o Ministro da Economia e das Finanças a declarar que, se não estancadas, reduziriam praticamente a zero as reservas do país, no fim do corrente ano. A mecânica do plano de reequilíbrio, divulgado em preliminares, compuseram-se, no âmbito financeiro externo, do saque de 985 bilhões de dólares do Fundo Monetário Internacional e a eventual utilização de 1.600 milhões de dólares concedidos, em parte pelo Federal Reserve Bank de Nova York em torno de um bilhão de dólares, de acordo com o jornal O Estado de São Paulo de maio de 1969. 
            Um terço dos 600 milhões restantes desse saque seria pelo Banco Internacional de Compensações, e os dois terços finais, pelos países integrantes do mercado comum europeu. Esta injeção liquidez permitiria aos países reanimarem-se para fazer face aos seus compromissos externos e a defender a sua moeda, nos mercados financeiros internacionais. Para tanto foram acordadas a contenção das despesas públicas, admitindo-se apenas um aumento de despesas da ordem de 7 % em relação ao seu último; providências objetivando a um mais estreito enquadramento do crédito, inclusive com redução do prazo e da parcela financiável nas vendas a prestação; e, finalmente, a criação de estímulos à poupança interna, para contrapor-se ao fenômeno do consumo interno abusivo que vinha ocorrendo, com reflexos negativos sobre a economia. O elenco de medidas reequilibradas achava-se, todavia, apenas delineado ou em fase inicial. Algumas dessas intenções já se concretizaram, como a supressão da taxa privilegiada de desconto, pelo Banco de França, dos efeitos originários de operações de exportação. 
Em verdade, a recuperação do dólar após a Confederação de Washington, em março de 1968, e as medidas anunciadas pelo então Presidente dos Estados Unidos para atacar as causas e não mais os sintomas da inflação, e a convicção mais ou menos generalizada de que a Administração Nixon não modificaria o valor oficial do ouro, liquidaram praticamente, as esperanças francesas de verem resolvidos os problemas do franco à custa de uma desvalorização do dólar. A convicção da França de que o arsenal de recursos disponíveis seria sempre suficiente, não só para o desencorajamento da massa de capitais especulativos, como também a uma investida da solidariedade monetária internacional que, embora politicamente relativa e dinâmica, atua sempre em favor do Banco de Ajustamentos Internacionais da Basiléia BIS, complementarmente a convicção de que a situação desfavorável do balanço de pagamentos tende sempre a se corrigir.  E, aquele que primeiro levantou protesto contra a privilegiada posição exercida pelo dólar como política de equilíbrio parece ter sido o economista francêsJacques Rueff,membro da Academia de Letras de França. Com grande influência junto ao Governo de seu país foi o mentor da reforma monetária que levou a França à adoção do chamado Franco Novo. Tratava-se de economista da escola liberal, mas um dos últimos defensores do padrão ouro. Rueff se manifestou com veemência contra as ideias da Teoria Geral deKeynese é considerado eminence grise do Governo do General De Gaulle em questões monetárias e financeiras. Como partidário do padrão ouro, Rueff não concordou com a solução de eliminação do ouro do sistema monetário internacional, sobretudo na compensação sugerida na Clearing Union de Keynes. Em seus escritos,insurge-se, Jacques Rueff, contra o chamado thegold-exchange standard.  
O então Primeiro Ministro Couve de Murville afastou a possibilidade de uma desvalorização do franco, argumentando que não haveria nenhuma razão, na situação presente da economia e dos preços, para pensar que uma operação monetária seria interessante para a atividade das empresas. O primeiro comentário que suscitou esta declaração foi naturalmente, a preocupação do Primeiro Ministro em colocar a questão da moeda em termos ligados diretamente ao interesse das atividades das empresas, o que pareceu visar a um duplo objetivo de combater, pelo esvaziamento, a tese de certos meios favoráveis à desvalorização, segundo a qual a posição governamental, contrária à revisão da paridade do franco, resultaria em mais dos interesses e concepções políticas do General Charles De Gaulle, e de deixar aberta uma porta para eventuais justificações de ordem técnica, no caso de desenrolar os acontecimentos sócio-políticos e do balanço de pagamentos conduzirem, irremediavelmente à desvalorização do franco. 
Esta preocupação se justificou, pois, o Governo francês manobrou no campo monetário internacional. O problema da paridade do franco, neste fato, e das dificuldades que, eventualmente dele poderiam decorrer no futuro sempre se apresentaram como processos de desvalorização geralmente preso a um contexto político-eleitoral, acentuando, porém, sua feição técnico-econômica. Fundindo elementos da perda de substância, ao menos em tese de que, mais cedo ou mais tarde, o dólar se manteria, necessariamente, como paridade mundial em permanente crise, ou de que a libra forçaria uma reforma do sistema monetário internacional capaz de propiciar uma revisão geral das paridades das moedas e que, portanto, os males da conjuntura monetária mundial poderiam provocar uma solução de conjunto que, por si mesma, eliminaria a necessidade de o Governo francês tomar uma decisão sobre a paridade de sua moeda.  Com efeito, o controle cambial que foi aplicado com extremo rigor, permitiu obstar saídas vultosas de capital embasada através da ação teleguiada do Banco da França, no mercado do ouro de Paris (onde se realizava vendas judiciosas do metal precioso quando a cotação da moeda francesa cai abaixo de certo nível). Os recursos para executar esta política de dissuasão e defesa, ou seja, 3,7 bilhões de dólares de suas próprias reservas, 2 bilhões que lhe foram concedidos, em Bonn, pelos demais integrantes do Grupo dos Dez, 1,2 bilhão proveniente de acordos de swaps (julho de 1968), e 1 bilhão que pôde ser sacado no Fundo Monetário Internacional, totalizaram 7,9 bilhões de dólares, aproximadamente. 
A solidariedade monetária internacional nesse caso adiantou aos Estados Unidos ossaldos em dólares da França, e contribuiu para que o Governo francêsadotassea politica de converter tais saldos em ouro. Algo que, se não desagradou à opinião técnica dos Estados Unidos, e colocou a França na posição de se apresentar ao mundo, com certo orgulho, como a segunda nação possuidora do maior estoque daquele metal naquele momento. Sendo que aação do Banco de Ajustamentos Internacionais da Basiléia foi fundamental para fornecer apoio irrestrito, mesmo no plano psicológico por intermédio de declarações tranquilizadoras de Governadores de Bancos Centrais dos principais países industrializados da convicção governamental de que a situação desfavorável do balanço de pagamentos tenderia a se corrigir.  
            É neste plano que este artigo foi preparado. A configuração do sistema monetário internacional na tensão Leste-Oeste e no duopólio do poder mundial, mais o fim do padrão ouro são apresentados em seu caráter de concessão e de mútuo acesso ao poder financeiro internacionalizado e redesenhando nas organizações internacionais tais como o FMI e BIS. A produção de gestão e autogoverno através da renovação de mecanismos políticos de consulta dos Estados Membros como condição inerente aos novos desafios lançados pelos mercados assiste sua tese principal. 

Concessão e acesso ao poder financeiro. 

            De acordo com o Journal of Commerce os meios financeiros americanos manifestaram a preocupação diante do relativo enfraquecimento do dólar causado pelo contínuo déficit do balanço de pagamento pelo recrudescimento da procura internacional e ouro que modificou as regras do comércio internacional do ouro. Tal modificação consistiu em restringir a compra e venda do ouro por 35 dólares às operações dos Bancos Centrais criando um mercado paralelo do ouro entre particulares. O Jornal Washington Post anunciou que a criação de um pool do ouro de 1 bilhão de dólares de que participariam sete Bancos Centrais e que se destinaria a enfrentar a   onda especulativa, em troca das quantias depositadas no pool, os Bancos Centrais receberiam certificados de depósito que seriam considerados como parte de suas reservas de ouro.   O então Secretário do Tesouro, Sr. Fowler anunciava o compromisso assumido pelos Bancos Centrais dos Estados Unidos, Reino Único, Bélgica, Alemanha, Itália, Holanda e Suíça de lançar suficiente ouro no mercado de Londres para manter o preço do nível de 35 dólares por onça, tratava-se apenas de novo compromisso. Destinado a desencorajar especuladores, do pool de ouro de 1961 a parcela americana, após a saída da França, representou 59% do total, pois em longo prazo seria muito difícil manter a posição do dólar em relação ao ouro diante do quadro de déficit do balanço de pagamentos e da pressão inflacionária.  (BOUGHTON2001
As discussões dos dez principais países em Bonn, em que um front franco-anglo-americano, aos quais os círculos monetários já se haviam desacostumado, pareceu ter sido constituído para pressionar a Alemanha a arcar com os maiores ônus daquela crise. Ao que parece, a recusa do Governo alemão em revalorizar o marco e sua proposta alternativa de adotar medidas para reduzir o superávit da balança comercial do país, entraram com o apoio da Suíça, Itália e Países Baixos, mas foram julgadas muito tímidas pelos Estados Unidos, França e Inglaterra e, sobretudo pelas duas últimas, cujas moedas sofreram com o envolvimento progressivo à medida que a crise se prolongou. (OESP, 1968) 
Após as primeiras discussões, consolidaram-se três correntes de opinião distintas: a que continuou a recusar a hipótese de desvalorização do franco e revalorização do marco, vendo em medidas práticas tendentes ao reequilíbrio a solução não traumática da crise; a que previa um reajustamento geral das paridades das principais moedas (dólar libra franco e marco alemão), baseada, sobretudo, nos rumores de que a França havia ameaçado na Conferência de Basiléia, a promover uma desvalorização dessa moeda, suficiente importante para desencadear um reajustamento geral; e a que prenunciava a desvalorização do franco, como medida de compensação para uma revalorização apenas razoável do marco. (OESP, 1969) Esta tese, sobre a qual se especulou intensamente, decorreu de interpretações de certas posições em Bonn e em outros centros financeiros, de notícias filtradas e de fatos indicativos de que as medidas já anunciadas pela Alemanha não solucionariam, por si sós, a crise, e que as mesmas deveriam ser complementadas por outras, tomadas por outros países.   Os meios bancários de Nova York, que previram, no fechamento da maioria dos mercados financeiros europeus, um presságiodo realinhamento das taxas de câmbio entre o marco e o franco.   Como resultado deste clima de incerteza, o dólar e o marco alemão se beneficiaram, no mercado de câmbio de Paris, de um prêmio de 3ª a 4 % para o dólar, e 5 a 12 % para o marco, relativamente às suas paridades oficiais com o franco, naquele período. 
            O panorama monetário internacional foi marcado por uma viva e persistente agitação sobre os principais mercados mundiais de câmbio, assim como pela natural repercussão sobre os mercados do ouro. A efervescência foi alimentada por fortes movimentos especulativos de capitais, que pressionaram, no sentido da baixa, o franco francês, e, no da alta, o marco alemão. Foi nesse contexto de tensões e apreensão que se iniciou em Basiléia, a Conferência dos Governadores dos Bancos Centrais da França, Alemanha, Grã-Bretanha, Bélgica, Holanda, Itália, Suíça, Suécia, Estados Unidos e Japão, que foi seguida, como acontece todos os dois meses, por uma sessão de trabalho dos Governadores dos Bancos Centrais dos 6 países do Mercado Comum. Os resultados e as conclusões específicas, e de acordo com Fundo Monetário Internacional (IMF, 1998) dessa conferência são apenas conhecidos nos termos da declaração do Primeiro Ministro Couve Murville de que toda a assistência de que a França necessitasse no futuro lhe seria concedida sem qualquer reserva. Não obstante, puderam-se identificar no temário da Conferência de Basiléia alguns pontos principais que constituem o final do padrão ouro.  
O Ministro Couve de Murville regozijou-se de que a Conferencia de Basiléia teria confirmado a existência de uma solidariedade monetária internacional, referência implícita ao fato de que esta seria capaz de propiciar uma solução para a crise, sendo que alguns dos principais mentores da política monetária francesa não ocultavam sua opinião de que a França não deveria colocar suas reservas monetárias a serviço de um sistema monetário internacional que julgavam iníquo, vale dizer, em defesa de moedas naquela época doentes. (LAVAGETTI, 2004) Se, por um lado, a valorização do marco alemão constituir-se-ia numa solução de curto prazo para a crise, beneficiando, portanto, a França, por outro lado, as repercussões negativas que poderiam advir para a economia alemã não poderiam deixar de suscitar graves preocupações para o Governo de Paris, pois as crises econômicas alemãs, como a de 1967, repercutiram intensamente sobre a França, Muito embora o Governo francês continuasse formalmente infenso à ideia da desvalorização do franco, sobre o assunto o General De Gaulle expressou-se nos seguintes termos: aceitar a desvalorização da moeda seria o pior dos absurdos, a corrente político-econômica de opinião contrária encontrou-se, fortalecida, aliás, essa corrente lançou sobre o Governo a responsabilidade da crise do franco, rejeitando a tese de que sua causa exclusiva fosse os acontecimentos de junho de 1968, tese que o Governo francês explorou intensamente tanto no plano interno quanto ano externo. (IMF, 1998)
Diversas causas, não diretamente imputáveis às greves do ano de 1968, foram apontadas, ressaltando, dentre elas, o grande déficit das empresas nacionalizadas. O Governo De Gaulle começou a ressentir-se quando a autolimitação a que se impôs, colocou, logo após a crise de maio, a questão monetária como questão de honra do Governo, dando-lhe, pois, uma dimensão política muito grande. Muito embora qualquer previsão objetiva sobre o franco pareça hoje anacrônica, a paralisação das operações da bolsa de Paris, decidida pelo Ministro Ortoli, naquele momento, constituiu expressão inequívoca das dificuldades com que ora se defrontou o Governo do Presidente De Gaulle no plano monetário. Os problemas que se colocaram para a estabilidade do franco constituíram a melhor expressão e síntese das dificuldades criadas para a economia francesa pelos acontecimentos de maio-junho, e suscitaram um exame do seu contexto à luz dos dados ora disponíveis, muito precários por duas razões fundamentais: a) o período de paralisação da economia pelas greves emendou-se, praticamente, ao período de férias, e, dessa maneira, não se processou a rentréeque marcaria o início efetivo da realidade econômica de pós-crise. Disto resultou, concretamente, que a economia francesa não teria se expressado em função da nova escala salarial, vale dizer, não teve oportunidade de demonstração de sua capacidade de absorver a explosão dos salários e, portanto, de provar a sua competitividade. O Governo Couve de Murville acabou pedindo dezoito meses para recolocar sobre os trilhos a economia e em curto lapso de tempo decorrido desde a crise não autorizou qualquer juízo de maior profundidade sobre as possibilidades de sucesso de divisas, orçadas, em US$ 2 bilhões em três meses (1/3 das reservas totais do país). (IMF, 1998)
As perspectivas de que esta última deveria se manter ao ritmo de 100 e 200 milhões de dólares mensais até o fim do ano, começaram a suscitar inquietudes sobre se as reservas monetárias resistiriam a uma eventual sangria e logo as primeiras dúvidas sobre se a questão monetária foi colocada num círculo vicioso, em que o franco se enfraqueceu por força dos controles impostos. No que toca ao Balanço De Pagamentos, embora os resultados da balança comercial de julho daquele ano tenham sido favoráveis (6,11 bilhões de francos de importações contra 6,39 bilhões de exportações, segundo dados oficiosos) , o conjunto das operações com o exterior sofreu os efeitos de evasão sazonal (férias fora da França) mesmo com um incremento das importações devido à aceleração da expansão econômica.    
A fraqueza do franco foi bastante evidente: a moeda valia de 10 % a 12 % menos no exterior que na França e os títulos das sociedades estrangeiras valiam de 12 % a 15 % a mais na Bolsa de Paris. Por outro lado, em complementação ao controle de câmbio, o ‘Banque de France não comprou francos no exterior, com a dupla finalidade de estimular os turistas estrangeiros a despender, na França, a moeda francesa, e evitar que os nacionais dirijam ao exterior para comprar divisas estrangeiras, burlando, assim o teto de compra de moeda estrangeira estabelecido pelo controle cambial. Diante desses fatos, enquanto não se corrigiu as causas estruturais da pressão sobre a moeda, persistiu o clima psicológico de dúvida quanto à sanidadedo franco, e, naturalmente, continuou a existir o franco paralelo. Não obstante esta realidade, até que se confirmasse a capacidade da economia francesa de absorver as altas salariais, ainda assim, o Governo pareceu não ter alternativa senão ajustar os mecanismos de correção em função do comportamento da economia durante todo este período de transição em que o fim do padrão ouro passou a ser uma realidade. Entre as orientações extremas da supressão total do controle de câmbio e a do seu enrijecimento, foi sendo preconizada a solução intermediária de liberar progressivamente as transações à medida que melhorias no balanço de pagamentos permitiram o novo aporte de liquidez. (MINSKY, 1986)
Neste contexto de dificuldade, não se pôde deixar de examinar a repercussão sobre a moeda do montante do déficit orçamentário. Embora não se dispusesse de qualquer informação oficial sobre o mesmo, estimou-se que, coerentemente com o caráter expansionista do orçamento para 1969, o déficit se situaria entre 12 e 13 bilhões de francos, colocando-se, naturalmente, o problema de seu financiamento. A este respeito, as autoridades do Ministério das Finanças foram otimistas: o financiamento do déficit poderia ser inteiramente realizado através da poupança, não se recorrendo a meios inflacionários capazes de enfraquecer mais uma vez a moeda. Não recorrendo ao Banco de França para financiar o déficit do Tesouro, o Ministro da Fazenda manteve-se fiel à fórmula Rueff-Pinay, aplicada com todo o sucesso em 1958 em que o financiamento total do déficit, se deu através de empréstimos ao Setor Público. (OESP, 1971) 
No plano externo, o desenvolvimento da questão monetária internacional não pareceu ter sido favorável à aspiração francesa de uma solução de conjunto. Segundo a OCDE, o auge da crise monetária passou e o ano de 1969 deveria marcar uma redução progressiva dos déficits britânico e norte-americano e dos excedentes das CEE. Por outro lado, tratando-se a questão do Vietnam do tema central da campanha eleitoral nos Estados Unidos naquele ano, pareceu improvável que os problemas monetários daquele país fossem considerados como tema eleitoral promissor, diminuindo-se, assim as possibilidades de que a mudança de Presidente significasse, necessariamente, a alteração da política monetária internacional dos Estados Unidos. Seria, pois, improvável que, na base de sua dinâmica natural a situação monetária mundial caminhasse para uma crise tal que a única solução fosse à valorização do ouro. Assim sendo, a França teria de resolver sozinha, os problemas de sua moeda, não podendo, por razões de coerência e de política na CEE, nem mesmo associar-se às investidas dos anglo-saxões em favor de uma valorização do marco, que resolveria parcialmente os problemas do franco. Evoque-se, a título informativo, que a França defende, tradicionalmente, em todos os foros monetários, a tese de que as crises de balanço de pagamentos devem ser resolvidas pelos países deficitários e não pelos superavitários. (HEYMANN, 2012)   
É, pois, neste quadro que estiveram colocados os problemas do franco. Por todas as razões acima expostas, tudo indica que do desenvolvimento dos fatos até o fim do padrão ouro, as autoridades francesas puderam fazer um juízo crítico definitivo de sua política monetária, e somente deste juízo pôde decorrer uma conclusão segura sobre se aquela orientação levou aos fins desejados ou se, contrariamente, demonstrou que a desvalorização seria o único meio, sendo que a especulação precipitou o fim do padrão ouro e estabeleceu um custo ao franco de US$ 1.300 milhões, relativo à détente econômicae suas pressões sobre o franco. 

Política De Prestígio E De Defesa Da Moeda. 

A França não estaria em condições de decretar unilateralmente uma desvalorização importante (os meios comerciais julgaram que deveria situar-se entre 10 e 15 %), pois os seus efeitos equivaleriam ao restabelecimento de uma proteção tarifária incompatível com os objetivos do mercado comum europeu. A desvalorização da moeda francesa comprometeria inevitavelmente a posição do país no que toca à reforma do sistema monetário internacional e as autoridades governamentais, embora reservado para após as eleições o anúncio formal da política econômica que iriam adotar, mencionaram que a alternativa seria uma política de expansão econômica, que não obstante, comportaria medidas paralelastais como empréstimo nacional, elevação de impostos, controle de créditos e economias orçamentárias. Diante deste quadro, cabe indagar se a política de austeridade que estas últimas medidas consubstanciou é mesmo compatível com o contexto do sistema financeiro internacional, ou transpondo-se a mesma questão para o plano monetário, se é possível um Governo avaliar-se sempre pelos sucessos de sua politização agressiva, suportando os ônus de uma política de prestígio e de defesa da moeda.  (DE LIMA, 2011)
Ainda de acordo com o FMI, o Banco da França não supriu os Bancos com o metal precioso sendo que as vendas de ouro, que se vinham realizando até o final dos anos de 1960 encontravam-se na ordem de 5700 francos por quilo, e alcançaram em operações entre particulares, a cifra recorde de 7.000 francos por quilo. Anunciou-se que as transações de ouro na Bolsa de Paris, que normalmente se situam em torno de 4 bilhões de francos no período, atingiram 96,8 milhões e 263,2 milhões ao termino de 1969, tendo sido negociadas 35 toneladas de lingotes, 800 barras de 2,5 quilos e 50.000 napoleões. (IMF, 1998) 
As medidas unilaterais de defesa adotadas pelo Governo norte-americano, ou seja, a elevação da taxa de desconto de 4,5 para 5% e a supressão da cobertura ouro do dólar, pois se questionou sobre até que ponto as autoridades do Governo Johnson estariam dispostas a usar todo o seu estoque de ouro para garantir a manutenção do sistema monetário internacional naqueles termos: selou entre os países integrantes do Pool do ouro o nascimento de um mercado paralelo, que, segundo os mesmos meios, deveria situar o preço do ouro em torno de 45 dólares a onça. (OESP, 1970) Acentuaram, dessa forma, que o aparecimento de tal mercado comprometeria, de qualquer maneira, a política de prestígio no plano monetário internacional em que os Estados Unidos estariam engajados, pois, mesmo que mantida a cotação oficial, o dólar sairia desvalorizado da presente crise, pela própria existência de um mercado paralelo. O acordo de conversibilidade de 35 dólares a onça com os Bancos Centrais que se comprometessem com o Governo de Washington, a não fazer uso desse direito e da impossibilidade de alguns países se retirarem do Pool do ouro, ou mesmo de que a reunião de Washington marcasse o fim desse sistema de cooperação monetária internacional, o que multiplicaria as responsabilidades dos Estados: propiciou a abertura do mercado para além dos domínios do ouro com o objetivo de uma tomada de situação em um mercado que é fortemente indicativo e que se mantém reservado quanto à situação de paridade, numa clara demonstração de confiança na moeda norte-americana, que, contudo, não consegue ocultar objetivos políticos. É certo, todavia, que, embora que se tenha visto com apreensão as consequências possíveis de uma crise monetária dessa magnitude considera-se que a situação atual é resultante de todos os inconvenientes de um sistema monetário que há muito vem obstinadamente condenando a evolução monetária e que reflete bem o estado da atual crise financeira internacional.
                                   

Considerações Finais 

Certamente, é preciso acrescentar dois comentários, marginais, ao objetivo central do presente artigo, mas pertinentes ao contexto global. O primeiro refere-se à mudança de orientação, no que tange à desvalorização. Classificada em novembro de 1968, como o pior dos absurdos, pelo então Presidente De Gaulle, é hoje praticada disseminada pelo sistema financeiro internacional, dado na firme convicção de ser sensato, para o reerguimento da economia global: maior vida a especulação sobre a moeda e à demanda interna desenfreada, bem com de que estimulação as exportações, por aumentar, através de um artifício monetário, a remuneração das mercadorias vendidas ao exterior e, por ação desse mesmo artifício, ampliação da capacidade competitiva dos produtos oferecidos no mercado internacional. Ora, esse modelo de orientação torna defensável a expectativa de que possa vir a ser igualmente adotada, em outras áreas, ainda que orientação conflitante, mas que de toda forma seja arbitrada pelo Fundo Monetário Internacional, de caráter condicional e concessional. 
Desde julho de 1968, a França esgotara a sua margem de saques automáticos (incondicionais) sobre o FMI, ao retirar milhões de dólares a que tinha direito, por força do montante de sua conta de participação (985 bilhões de dólares) nesse organismo financeiro internacional. A partir desse momento, portanto, se ela desejasse utilizar novos recursos do fundo teria de conformar-se aos dispositivos estatais do órgão criado na Conferência de Bretton Woods, submetendo-se, destarte, a uma incomoda ingerência na dinâmica da contabilidade pública, condição essa inaceitável para um país que com sua independência diplomática, e que se permitira até tantas baterias contra outras moedas nacionais e contra o vigente sistema financeiro internacional e seus principais mantenedores, que fizesse saques, em outros organismos ou mesmo de acordos internacionais. Agora, no entanto, a utilização desses novos recursos condicionou-se à apresentação de plano de reequilíbrio pelo país solicitante e à aceitação, por este, das condições de utilização impostas pelo Fundo. Ademais, tal ato implicou na verificação periódica, por peritos do FMI, da marcha do plano de reequilíbrio. Este exame periódico do plano e de seus resultados comprometeu, obviamente, a imagem de independência nacional a que o país se apegara nos últimos anos. É válido, em decorrência, admitir-se que, daquela situação, poderia resultar uma mudança de atitude deste país face aos problemas financeiros internacionais em virtude de uma desvalorização de sua diplomacia, para que assim de possa pousarsuavemente e novamente no mar de tranquilidade.
 O Governo francês sustentou que a expansão econômica seria prova indiscutível de que a absorção se processasse nos termos e no ritmo esperados. Certos meios industriais e políticos contestaram, dizendo que a expansão não era generalizada, e se aplicaria quase exclusivamente aos setores industriais que produziam bens de grande consumo, ou seja, àqueles que por sua natureza, são mais ligados ao consumidor cujo poder de compra foi aumentado. Tratava-se dos eletros-domésticos; móveis e tapetes; porcelana e iluminação; artigos de livraria, música e fotografia, que, no 1º trimestre de 1969, tiveram suas vendas aumentadas em 13%, 15 %, 10 % e 16 % respectivamente, conforme aponta o World Economic And Financial Surveys do FMI, de 1986.  Já na indústria de equipamentos pesados, a situação seria distinta, este ramo teve seus créditos orçamentários reduzidos; em todos os setores públicos e nacionalizados equilibraram-se os orçamentos e foi efetivamente, sobre as encomendas de locomotivas, de turbinas, de centrais, de centrais nucleares, de equipamentos militares, de modernização das Forças Armadas que se aplicaram, presentemente, as reduções dos créditos. No que concerne às exportações francesas de bens de equipamento, o país, que já era marginal, não foi mais competitivo após o aumento dos custos, o que colocou, realmente, o problema terrível, mas verdadeiro de se saber se se poderia sustentar a moeda ou se seria necessário fechar as fronteiras. 
Em resumo, a progressão do aumento das importações foi de 20,3 % e das exportações de 11,2 %. Diante deste quadro, duas possibilidades existiram: a) uma evolução favorável do comércio exterior, propiciada pela contenção dos preços internos em níveis satisfatórios, pelo aumento das exportações (resultante de fatores como: término do processo de absorção acima mencionado, resultados favoráveis dos diversos estímulos concedidos pelo Governo, etc.), pela redução ou congelamento do nível das importações, ou por qualquer outro balanço de pagamentos; e b) manutenção do déficit atual do balanço de pagamentos (ou seu agravamento) que estabeleceram o déficit anual entre 1,5 e 2 bilhões de dólares. Nesta segunda hipótese, parece não haver como evitar a desvalorização a que o General de Gaulle sempre se revelou infenso. O que é lícito inquirir, a título de conclusão, e sem prejulgar, é com referência à liberalização dos fluxos de capital. Destacam-se que as posições muito próximas dos países de economias avançadas devam manter respeito em relação a graduação dos demais países membros para efeitos de equilíbriode política macroeconômica. 


Referências Bibliográficas 

BOUGHTON, James M. Silent revolution: 1979-1989  Washington, D.C. Fundo monetário internacional, 2001. 
HEYMANN, Terry. Gold and Conflict World Gold Council Conflict-Free Gold Standard. Organisation for Economie Co-operation and Development, OCDE, 2012. 
INTERNATIONAL, Monetary Fund. (series).Finanças & desenvolvimento. Fundo Monetário Internacional - FMI, Banco Mundial - BIRD. Periódicos. PUC-SP, 1966 até 1998.
INTERNATIONAL, Monetary Fund. (Series).World Economic and Financial Surveys do FMI, 1986.  
LAVAGETTI, Lívio. Notas sobre a Ordem Econômica Mundial: 1944-1979.  Revista de Economia Política e História Econômica, n. I sei. 2004.
MINSKY, Hyman. Stabilizing an Unstable Economy: New HavemYale University Press, 1986.
O Estado de São Paulo, Caderno de Economia, 1969. Disponível em: www.estadão.com.br. Acesso em 15, jun. 2012.  
O Estado de São Paulo, 1968. Disponível em: www.estadão.com.br. Acesso em 15, jun. 2012.  
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O Estado de São Paulo, 1971. Disponível em: www.estadão.com.br. Acesso em 15, jun. 2012.  



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